Nunca a experiência do livro foi tão ambivalente como neste início do sec.XXI. Ao mesmo tempo que, graças à internet, nos tornamos leitores instantâneos da biblioteca universal, transportando na palma de um telemóvel a sustentável leveza de todos os livros do mundo,  ainda não nos conseguimos desfazer dos prazeres das estantes que,  em forma de tela de Vieira da Silva,  forram as paredes das nossas casas.  Oscilamos entre a nostalgia do acariciar as páginas de um livro num final de tarde de verão e a emoção de poder discretamente ler os grandes clássicos na última fila de um colóquio aborrecido. E, enquanto não sabemos se o livro impresso sobreviverá a este século, grandes impérios editoriais, concentrados maioritariamente na Holanda, Alemanha e Reino Unido, continuam a imprimir milhões de novos títulos todos os anos. Para garantir o imperativo da publicação como critério de avaliação curricular, estas editoras académicas consomem metade dos orçamentos públicos para as ciências humanas na Comunidade Europeia. 

Crescem desmesuradamente as bibliotecas universitárias com livros que ninguém lê. Mas continua a aumentar a angústia do autor que não consegue ser publicado. Cada vez mais editoras vivem dessa mistura explosiva. De um lado, o autor desesperado, pronto a pagar qualquer preço pela edição do seu  manuscrito. Do outro, os subsídios públicos para impressão em papel dos trabalhos produzidos por multidões de graduados e pós-graduados. 

Fora dos livros eruditos subsidiados, mantém-se um mercado do livro do entretenimento. Entre os dois extremos, o vazio. Por isso desaparecem as livrarias de bairro e os supermercados dedicam mais espaço aos livros de auto-ajuda do que aos produtos de emagrecimento saudável. 

A Fábrica do Braço de Prata tem condições raras para interromper esta espiral da auto dissipação do livro.  Vamos criar uma editora que habita um ponto médio entre o formato digital e o livro impresso. Os nossos livros terão inicialmente a condição de objectos materiais. Mas, a partir da venda de 300 exemplares, eles passarão a estar disponíveis, em livre acesso, na nossa plataforma virtual – sem que deixemos de os continuar a imprimir para aqueles que não dispensam a volúpia do papel. 

Em segundo lugar, torna-se urgente editarmos aqueles livros que gostaríamos de vender mas que ninguém quis publicar.  Pensamos em a) originais de autores portugueses na área das ciências humanas (teses académicas ou não), em b) edições estrangeiras (sobretudo do Brasil) que chegam ao nosso mercado a preços absurdos e que nós podemos editar em parcerias com as editoras originais, em c) traduções que já ninguém sabe/quer fazer, em d) reedições de monumentos quase desaparecidos e cujos direitos caíram no domínio público.

Em terceiro lugar, seremos uma editora que se constitui a partir de uma livraria. Somos uma livraria com baixos encargos – não pagamos renda e temos um espaço tendencialmente ilimitado para as nossas estantes. Não temos que devolver os livros que não se vendem ao fim de seis meses. E repomos em circulação títulos há muito saídos das livrarias. Assim, ao vendermos as nossas edições directamente na nossa livraria, não temos que pagar os 30% da distribuidora, nem os 30% do livreiro. Podemos assim disponibilizar as nossas edições quase ao preço do custo. Tal significa praticar valores que se aproximam de um terço das tabelas comuns. Não faremos  a distribuição dos nossos livros para outras livrarias. Mas em qualquer ponto do mundo os nossos livros estarão disponíveis graças ao sistema de venda on-line. 

Em quarto lugar,  graças à tecnologia do print on demand , não seremos forçados a grandes investimentos iniciais nem a grandes tiragens. Começaremos por imprimir 100 exemplares de cada título. À medida que se forem vendendo, faremos novas impressões.

Tudo faremos para vender as nossas edições. Estarão em destaque na livraria, organizaremos eventos (musicais ou não) que ajudem a percepcionar aquilo que neles está em jogo. Até porque as pessoas que nos compram livros são quase sempre apanhadas desprevenidas. Vêem para os concertos, para as exposições, para o restaurante, para os bailes, para os ciclos de cinema. Muitas até já se esqueceram de que existem livros impressos. E, no entanto, num momento de distracção, afundam-se bruscamente numa capa, num título, num nome de autor. E aqueles que nos procuram depois de terem percorrido todos os alfarrabistas da cidade, mesmo quando não encontram o livro das suas vidas, descobrem nos concertos que acabam por escutar o cuidado paliativo para o seu desespero. Às vezes são invadidos por aquela catatonia que costumava descer sobre os monges copistas, depois de horas a desdobrar pergaminhos. Por isso, muitas noites, enquanto diferentes sons ecoam pelos corredores vindos dos vários concertos, é possível ver, espalhadas pelas salas da livraria ou pelos lugares de exposição, verdadeiras esculturas imóveis que retomam a grande galeria das posturas clássicas do acto de ler. 

Por último, porque somos muito mais do que uma livraria ou do que uma editora, mas somos uma grande casa de concertos, exposições, filmes, palestras, escola de música (nas vertentes de Jazz e de Escola Clássica), ateliers performativos, e porque nenhum concerto está desligado das obras de arte que estão expostas na sala ao lado ou dos livros em destaque essa semana na nossa livraria, cada livro a editar pela Fábrica do Braço de Prata é já em si mesmo um precipitado de experiências múltiplas. Não serão só os rituais de lançamento dos nossos futuros livros que estarão naturalmente envoltos em  sons e imagens. A própria escolha dos títulos do nosso catálogo, assim como os convites a fazer aos autores que admiramos, será expressão de uma certa ideia de soberania - face aos condicionamentos académicos e financeiros - que define, desde a sua origem, a Fábrica do Braço de Prata.  

A editora da Fábrica do Braço de Prata será assim o lugar onde se condensará o melhor do que temos sido ao longo dos nossos mais de 10 anos de existência. 

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