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FachadaFBP menor

Contornos

Ninguém sabe muito bem o que a Fábrica é. E isso tem sempre jogado a favor do que lá acontece. Logo no plano dos seus contornos físicos. A FBP é um edifício meio abandonado, vestígio do lugar da administração da antiga fábrica de material de guerra, com 12 salas mutantes, que tanto são salas de concerto, como galerias de arte, gabinetes de curiosidades, estúdio de cinema, atelier de artes plásticas, oficina de ourivesaria, loja de roupas usadas e de outras coisas a usar, salas de jantar, bar, ou simplesmente livrarias. Mas também é um imenso muro exterior, que desenha por fora um terreiro, e onde várias camadas de graffiti se têm vindo a depositar como películas de memória. Também foi uma tenda de circo durante dois anos, onde houve concertos, feiras, performances e acrobacia aérea. E também é uma esplanada enorme, lugar para espectáculos de teatro e circo, concertos de verão, e jogos de bola para crianças em domingos à tarde.

Durante 3 anos a Fábrica cedeu três salas da cave à artista Teresa Carneiro, que ali criou uma galeria exclusivamente dedicada ao desenho. O atelier da artista plástica Joana Villaverde, e a oficina do escultor Miguel Figueiredo. Foram artistas residentes quase desde a fundação da Fábrica. Regularmente apresentavam os seus trabalhos nas exposições que a Fábrica organiza. 

O desenho institucional da Fábrica é ainda mais disforme do que a sua configuração física. A Fábrica foi criada através de um acordo verbal de comodato entre uma empresa privada – a Eterno Retorno, Sociedade Unipessoal Limitada, que tinha criado a gerido a Livraria Eterno Retorno, habitante do Bairro Alto entre 2001 e 2005 – e a Obriverca, empresa imobiliária que se tinha tornado proprietária de toda a antiga fábrica de material de guerra para aí construir um condomínio de luxo. O acordo estabelecia que a Eterno Retorno poderia ocupar o edifício da antiga administração e o terreno circundante, enquanto a Câmara Municipal não desembargasse a construção do condomínio Jardins do Braço de Prata, a ser edificado no outro lado da avenida, com projecto do Arquitecto Renzo Piano. Quando a construção desse condomínio pudesse ser retomada, a Obriverca iria utilizar o edifício que cedia à Eterno Retorno como stand de venda dos apartamentos e como escritório de obra. No final da obra, o edifício e o terreno passariam para propriedade da Câmara, como contrapartida pelo investimento municipal em infraestruturas para o condomínio.

 

A Fábrica de Braço de Prata como laboratório de outras “fábricas”.

A Fábrica teve em Lisboa um papel inaugural no movimento de reciclagem de edifícios esquecidos. E esse papel não se exprimiu apenas na condição de exemplo feliz, de modelo a reproduzir. É que foi uma parte da comunidade que inventou a Fábrica que esteve ligada à criação de algo semelhante, mas a uma escala muito maior.
Uma semana antes de a Eterno Retorno se instalar no edifício, a Livraria Ler Devagar pediu para ocupar 3 das salas. Fez-se também um acordo com esta Livraria, até porque havia uma memória comum. De facto, quando a Eterno Retorno se instalou no Bairro Alto, ficou vizinha da Ler Devagar na Rua S.Boaventura. Criou-se o hábito, durante os 4 anos de proximidade, de organizar coisas em comum, como conferências, ciclos de leituras encenadas, concertos, e as famosas Festas de S.Boaventura, no mês de Junho, com performances e churrascos na rua. Quando a Ler Devagar teve que abandonar as suas instalações, por o edifício onde estava instalada dever ser demolido, propôs à Eterno Retorno associar-se a ela para criarem uma livraria conjunta em um espaço comum. Esse espaço acabou por se revelar inviável e aceitaram provisoriamente transferir-se para dois pequenos espaços, também no Bairro Alto, entre 2006 e 2007. Foi por a Eterno Retorno se sentir muito desconfortável nesses dois espaços que decidiu romper o acordo com a Ler Devagar e transferir-se para a Fábrica de Braço de Prata. Para grande surpresa nossa, a Ler Devagar acabou por também querer encerrar as outras duas pequenas livrarias provisórias, e por pedir para ocupar 3 salas da Fábrica. Assim, no dia de inauguração, a 14 de Junho de 2007, a nova realidade foi apresentada, não ainda como Fábrica de Braço de Prata, mas como Eterno Retorno+Ler Devagar. Foi logo a partir de Setembro de 2007 que nos passámos a apresentar como a Fábrica de Braço de Prata.
Como consequência do sucesso da Fábrica de Braço de Prata, mas sobretudo pelo precedente que ela abriu no plano de uma recuperação temporária de edifícios desactivados que conseguiam sobreviver sem reunirem as condições mínimas exigidas pela Câmara para terem licenciamento de espaço público, os responsáveis da Livraria Ler Devagar foram convidados a reproduzir o “efeito Fábrica” naquilo que ficou conhecido como a LXFactory. A transferência da Ler Devagar marcou verdadeiramente o arranque desse novo território no limite ocidental de Lisboa. Como se a Fábrica de Braço de Prata aumentasse de escala, como se passasse do tamanho M ao tamanho LX. Como o próprio Dr. António Costa afirmou num debate recente organizado pela Ordem dos Arquitectos da Região Sul, a Fábrica de Braço de Prata foi a verdadeira incubadora da LXFactory.

A terceira criação da Fábrica de Braço de Prata.

A construção desse “clone” em tamanho LX na zona de Alcântara, em 2009, teve vários efeitos sobre a Fábrica original. Em primeiro lugar, permitiu à Eterno Retorno assumir integralmente a ocupação e gestão das salas da Livraria. Foi possível assim criar uma grande livraria de ciências humanas, em parceria com cinco grandes editoras: a Assírio & Alvim, a Cotovia, a Relógio d’Água, a Presença e a Almedina. Em segundo lugar, para marcar a singularidade da aventura de Braço de Prata, reforçaram-se os vínculos entre todas as dimensões da Fábrica e procurámos que cada actividade da Fábrica tivesse sempre ressonâncias em todas as outras. Isso foi experimentado na programação conjunta de concertos, debates em torno de livros, e exposições de artes plásticas, ou na criação de noites temáticas que envolvessem toda a Fábrica.

Lisboa adopta a Fábrica. Como uma performance clandestina se transforma em património da cidade.

Ficou por explicar por que ainda não se deu o despejo da Fábrica, uma vez que o desembargo da obra por parte da Câmara Municipal já aconteceu. Essa é a parte mais improvável de toda a história da Fábrica. Pouco mais de um ano depois de termos inaugurado aquela aventura, a Câmara Municipal decidiu, em reunião de 16 de Julho de 2008, atribuir de novo à Obriverca a licença de construção. Isso significaria imediatamente o nosso despejo. Para que tal não acontecesse, e sem que tivéssemos tido qualquer interferência nesse processo, a Arq. Helena Roseta conseguiu que fosse aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal, nessa mesma reunião de 16 de Julho, a proposta de declarar o edifício da Fábrica de Braço de Prata como equipamento cultural da cidade e de atribuir à Eterno Retorno a responsabilidade de continuar a gerir esse equipamento cultural em nome da Câmara a partir do momento em que ele passasse para património municipal (o que deverá acontecer quando o condomínio Jardins do Braço de Prata estiver concluído e as licenças de habitação tiverem sido atribuídas aos apartamentos construídos).
A Eterno Retorno recebe alguns dias depois uma carta assinada pelo então Presidente da Câmara, Dr. António Costa, informando-a da decisão de atribuir a gestão do edifício da Fábrica aos seus actuais responsáveis, pedindo que entrássemos em contacto com os serviços jurídicos da Câmara para estabelecermos os termos de um contracto que legitimasse a nossa ocupação da antiga fábrica e a sua transformação em equipamento cultural. Alguns dias depois dirigimo-nos aos serviços jurídicos da Câmara Municipal. Fomos aí informados que era ainda impossível à Câmara estabelecer qualquer contracto connosco, uma vez que a Câmara ainda não era a proprietária do edifício. Foi-nos sugerido que estabelecêssemos um novo acordo de comodato com a Obriverca, para o período em que teríamos que esperar a transição de propriedade. A Obriverca recusou-se a fazer um tal acordo, invocando os seus deveres para com a Câmara que a obrigavam a entregar o edifício livre de ónus ou encargos. Como consequência final, a Fábrica de Braço de Prata está impossibilitada de ter um estatuto legal. Claro que, apesar dessa ilegalidade de fundo, continuamos a pagar todos os impostos, IRC, IVA, Segurança Social, Pagamento por Conta, SPA, etc.
Regularmente somos visitados por inspectores da ASAE, e regularmente somos objecto de contra-ordenações que nos levam a tribunal. Algumas vezes somos absolvidos, outras vezes somos obrigados a pagar pesadas multas. Felizmente, essas multas podem ser pagas a prestações. Se não fosse esse o caso, há muito que a Fábrica estaria financeiramente asfixiada. O que é então a Fábrica, enquanto instituição? Uma empresa legal instalada ilegalmente num edifício que virá a ser da Câmara e do qual ainda não foi despejada pela sua actual proprietária devido à intervenção protectora da própria Câmara. Um facto que criou a sua própria justificação, uma performance insólita que obrigou a razão colectiva a alargar a sua ideia de arte pública.
Porque a nossa ilegalidade nos impede de concorrer a subsídios, a financiamentos de mecenato, a patrocínios regulares, fomos libertados da necessidade de viver na permanente expectativa quanto a ajudas financeiras externas. Não recebemos um único cêntimo por parte do Ministério da Cultura, da Fundação Gulbenkian, do pelouro da Cultura da Câmara, dos programas de animação da Junta de Freguesia de Marvila, ou das verbas sociais da paróquia. O orçamento da Fábrica está todo ele suportado na facturação realizada com as nossas actividades.

Uma gestão sem condições.

A grande dificuldade seria garantir que essa soberania tivesse alguma perenidade. As versões mais libertárias, como as de ocupação pura e simples de territórios abandonados, já se tinham mostrado demasiado frágeis. Dependem de tolerâncias de gente demais fora do edifício, e, do lado de dentro, de demasiada militância de muita outra gente. A ideia foi utilizar a empresa privada já constituída para gerir a Livraria Eterno Retorno no Bairro Alto para fazer um acordo de comodato com o proprietário. E utilizar essa empresa privada para criar um regime absolutamente novo de sustentabilidade: seria uma propriedade comum garantida por uma estrutura privada (jurídica e económica). A empresa unipessoal, com as suas obrigações jurídicas e financeiras, forneceria as condições de uma comunidade soberana, isto é, incondicionada, que, sem se preocupar com as condições da sua própria existência, se limitasse a ocupar aquelas salas e a colocá-las ao serviço dos criadores que nelas se reconhecessem. É um modelo extravagante. Uma empresa privada faz a gestão cuidadosa de todas as despesas e de todos os lucros para assegurar a sustentabilidade de um território que é utilizado, não por essa empresa, mas pela comunidade flutuante que ali faz o seu habitat.

Alguma contabilidade

Ao longo destes anos, conseguimos transferir para as centenas de músicos que tocam regularmente na Fábrica o valor aproximadamente de 900.000 euros. Este valor foi integralmente realizado pela bilheteira dos concertos, uma vez que a Fábrica não fica com nenhuma percentagem. O regime é muito transparente. As pessoas que entram na Fábrica a partir do momento em que se iniciam os concertos, pagam 3 euros às terças e quartas, e 5 euros às sextas e sábados. No final de todos os concertos (temos em média cinco concertos por cada noite de sexta e sábado, e dois concertos nas terças e quartas) dividimos todo o dinheiro realizado na bilheteira por todos os músicos que tiverem actuado nessa noite. Todos os músicos ganham o mesmo.
Como é então possível ter quatro salas de concertos, receber quatro ou mais concertos por noite e não cobrar nenhum valor sobre a bilheteira? Porque fazemos algum dinheiro no bar. É com esse dinheiro que pagamos todas as despesas funcionais da Fábrica, desde limpeza, consumíveis, aos salários.

Ilegalidade, soberania, independência.

A independência face a subsídios ou apoios externos que o bar nos permite dá-nos uma liberdade imensa, tanto no programa dos concertos, como no domínio da organização das exposições. Temos 7 espaços expositivos (entre salas, corredores e mesmo as escadas do elevador desactivado). Acolhemos em média 7 conjuntos de trabalhos diferentes todos os meses. Recebemos, nestes quase nove anos, mais de 600 artistas diferentes. Foram sobretudo exposições de pintura. Mas também organizámos exposições de fotografia, de vídeo, de desenho, de escultura, assim como instalações construídas especificamente para o lugar da sua aparição. Durante um ano essas salas receberam também um festival de artes performativas, o Epipiderme. Nas quase 600 exposições já realizadas, temos recebido sobretudo artistas portugueses. Mas já fizeram residências artísticas na Fábrica criadores vindos da Alemanha, da França, da Polónia, de Itália, de Inglaterra ou Estados Unidos.

O conceito como materialização da Ideia.

É agora o momento de falar do centro mais vital da Fábrica: as quatro salas da Livraria. Graças a parcerias que estabelecemos com as principais editoras nacionais nesta área, temos os catálogos integrais disponíveis de forma permanente das editoras Assírio & Alvim e Relógio d’Água. O mesmo acontece com as editoras Presença, Almedina, INCM, mas apenas nas áreas da Filosofia, Direito, Economia, Psicologia, História, Teoria da Literatura, Antropologia, Sociologia. Em paralelo com a preocupação de dar a ver as edições mais recentes, a nossa livraria organiza regularmente selecções temática de obras, tanto para responder a situações nacionais ou internacionais que ganham em ser apreendidas a partir de uma bibliografia recente, como para potenciar algum evento (lançamento de livro, conferência, debate). Assim, nas várias salas de concerto e de exposição tem sido possível organizar muitos ciclos de conferências (nem sempre da nossa iniciativa), seminários teóricos, cursos regulares. Alguns desses cursos chegaram a receber mais de 200 inscrições, e prolongaram-se por quase um ano lectivo. A livraria não é apenas mais uma dimensão “comercial” da Fábrica. Até porque, muitos são os meses em que a livraria não se sustenta a si própria. A livraria existe porque responde a três ideias. Preservar a arqueologia do lugar, uma vez que a aventura da Fábrica de Braço de Prata começou numa livraria, na Livraria Eterno Retorno, em 2001, no Bairro Alto. Em segundo lugar, resistir à degradação da forma-livro. A Fábrica é o lugar mais exaustivo de tudo o que foi editado em língua portuguesa nas áreas da Filosofia, da Sociologia, Antropologia, Psicologia, Teoria da Literatura. A terceira ideia que alimenta a livraria é do domínio de uma certa encenação do pensamento, aquilo a que Deleuze chamava uma “personagem conceptual”.

Acreditamos que tudo o que tem sido possível na Fábrica, e tudo o que está ainda por ser possível ali, exprime alguns conceitos. Conceitos de “soberania”, de “desobediência civil”, de “sustentabilidade financeira”, de “independência face a subsídios” são tão importantes para os nove anos de vida daquele território, como a boa gestão dos seus proventos. Ou antes, são esses conceitos que permitem que a empresa que gere os proventos não se aproprie de um único cêntimo do orçamento da Fábrica.

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