SÁBADO | 26 DE AGOSTO 2017 - 22H00

nuno elpais

A filosofia começa com uma imensa gargalhada. Primeiro, a gargalhada da mulher da Trácia quando vê Tales a tropeçar num poço. Ela não podia evitar sentir como cómico esse contraste entre a pretensão a explicar os céus e a falta de jeito para as coisas do chão. Sócrates procurou trazer essa gargalhada para a praça pública. Mas os atenienses não conseguiram rir de si próprios.

Sócrates teve que engolir o seu próprio riso (a que chamaram ironia) no momento em que foi obrigado a engolir a cicuta. Desde então o humor ficou domesticado no interior da comédia. Aristóteles ainda fez a sua reabilitação no segundo livro da Poética, opondo a gargalhada cómica à catarsis trágica. Mas essa metafísica do humor não sobreviveu.

Umberto Eco tentou convencer-nos que teriam sido os medievais a queimar a teoria aristotélica do riso. Talvez tenha razão. O que é um facto é que ainda hoje a filosofia procura afirmar-se diante da opinião pública com a impostura do sério e do grave. Mas, não seria possível regressar ao poço de Tales e ouvir de novo o riso da mulher Trácia? E se a nossa falta de jeito já não fosse para as coisas do chão mas, pelo contrário, para os assuntos dos céus? Assim o humor seria o de cairmos para os céus no momento em que nos especializámos na arte de colocar bem os pés sobre a terra. O riso teria a forma de uma elevação involuntária. Não seria isso uma Stand Up? Uma Stand Up Philosophy?

A partir de um qualquer conceito, Nuno Nabais, que já dedicou algum tempo aos grandes livros da tradição filosófica, procura recuperar a gargalhada que se esconde nos pensamentos mais profundos.

 

Joomla! Hosting from